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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (12)

Como  as pessoas constroem laços é mais interessante do que a forma comos os rompem. Sim, há na ruptura, sobretudo na lenta, um vivacidade tenaz. Ainda assim, na construção do laço habita um contraplano. Um pouco como um tipo que se engana na estrada mas não volta para trás.

Nas terapias há gente que me  esgota. Sugam-me  a energia, como dizem os tontinhos do reiqui. Bem, é compensar. Uma sesta impecável com a voz do Attenborough a descrever  a vida dura  de um tigre de Bengala.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (11)

Quando começam a morrer ou a ficar doentes  os da nossa geração   e das nossas relações ( excluo as ditas celebridades),  sói dizer-se que tomamos consciência  do peso do tempo e da idade. Não entendo  bem por que motivo uns quilos  a mais ou uns dentes a menos não fazem o mesmo trabalho.

Estou melhor da insociabilidade. Cultivo contacos pequenos, mas regulares. Brevíssimos. Passo por simpático e bem disposto. Os búfalos cafres também conseguem-se esconder-se atrás de uma moita.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (10)

"Foi por causa do Ronaldo e da bola de ouro. Há dois anos, quando ganhou a terceira. Perguntei-lhe quando  foi a primeira, insisti e ele começou a barafustar; depois bateu-me. Foi a última vez que me bateu".  Ela tem quase setenta anos e ouvi isto ontem. Qualquer  pretexto  serve. Lá  dizia o cardeal de Retz: o Bem dá muito trabalho, o Mal faz-se sem esforço.

Fui para o terraço às 06.50h. Lua cheia misturada com o primeiro esboço  do dia. Tirei fotografias. Estúpido. Devia estar a dormir.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 9)

Hoje mais pessoas para ajudar. Quando eu preciso, quem é que me ajuda? Fácil: anti-inflamatórios, o saco de boxe e o Benfica.

Quase a acabar a enorme  História da PIDE, da Irene Pimentel. Já tinha lido outro ( gosto muito dela), mais intímo e detalhado. Há nos torcionários uma ingenuidade desarmante: acreditam nos presos e torturados. Querem acreditar.






quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 8)

As pessoas por dentro. Ouço tantas vezes isto.  Como são / o que são. E o que interessa isso? A maior parte do que interessa  vem do que as pessoas são por fora. As rosnadelas ou a má educação, mas também aquelas que fazem logo uma observação bem humorada . É o radar humano.

É  divertido ter no gabinete  alguém com vinte e cinco  anos, tendo-o conhecido com cinco. Dá uma sensação incrível de  empatia, são as consultas mais relaxadas que existem. Um humano confiar assim noutro é enternecedor. Acontece que é  apenas a conveniência, um dos muitos nomes da necessidade.

Apontar:  Manchester x Liverpool,  domingo, 16h.






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 7)

Os ovos biológicos  ( oferecidos ou comprados) estelíferos  em azeite que tinha  apenas quinze dias ( três tons de verde claro com uma pitada de amarelo  espesso)  quando  o senhor F.L. mo trouxe. Pão  rústico, um copo de tinto. A melhor ceia, serôdia, depois de horas de parque humano.

Quanto mais conheço os humanos  mais gosto deles. Não me ladram, vestidos com camisolinhas para o frio,  nas varandas todo o dia.
O que se esforçam as pessoas . Algumas  fazem 200km ( ida e volta )  para uma sessão de psicoterapia. E tentam aplicar o que combinamos. E insistem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 6)

Ontem de volta  dele. O livro de histórias de violência sobre mulheres está com a edição estagnada, um amigo meu anda  a tratar disso,  mas sou bem capaz de o publicar online; o que faz falta é avisar a malta, o resto já  não me interessa.

Nunca me preparo bem para o início da semana. Um misto de optimismo com enfado. Como os velhos nos velórios: é mau mas não foi comigo.