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terça-feira, 21 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 31)

Já estou mais desconfiado  das novas línguas de bacalhau.  Estava habituado à cor marfim das anteriores.  Ainda não as fiz, óbvio, porque estão  a marinar  na receita da Bé. As expectativas.
A Expectativa é a amiga gorda da Esperança. É mais calma e descontraída. Ninguém aguarda o resultado de  uma biópsia  com a expectativa de se safar; tal como nenhuma grávida está de expectativas.
Ainda assim gosto de ambas. Há o tio, o Pessimismo blasé. Fuma cachimbo, usa lenço ao pescoço, masturba-se aos sábados  e brinca com comboios. Continuo a gostar mais delas: acreditam mais na vida do que nelas.


As minhas línguas nunca ficavam como as da Bé, do Carrossel, na Cova Gala, terra de pescadores. Um dia  apertei-a. Levou-me à cozinha e mostrou-me a marinada. As expectativas precisam sempre de uma boa professora.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 30)

  
Esta senhora foi salva dos nazis pelo Raoul Wallenberg em Budapeste. Em 1945, o Raoul  foi convidado pelos soviéticos a visitar o paraíso  socialista e desapareceu. 
Raoul  teve de mentir muito para salvar centenas de judeus. A mentira terapêutica às vezes funciona. Só às vezes.


Depois das da Lugrade, as da Caixamar. São línguas  de bacalhau islandês, mais amarelas, bom aspecto. Vamos ver, não gosto de mudar. O problema da expectativas.



quarta-feira, 15 de março de 2017

Diário de um psicólogo (29)

( corolário das  duas entradas anteriores) 
A nossa capacidade de construir fortins e duplos fossos e a possibilidade de existir sempre um traidor  dentro das muralhas. Também: de que servem as defesas se sabemos não conseguir resistir?  Ainda: como não considerar o traidor leal, se ele poupa  a fome  e a sede aos civis?

Acordei às  seis da manhã várias vezes.  Faço-me de morto e volto a adormecer. Com um olho aberto...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 28)

Do Oneirocriticon: se a pessoa sonha que carregou um navio com mantimentos  para uma longa viagem, significa que vai sofrer de ansiedade e tristeza.
Achmet na mesma linha de  A toca do Kafka: a cautela é tão normal como o desastre.


Terapias a começar. Fazer  a ligação às pessoas. Como nos interrogatórios policiais, procurar pequenos pontos comuns. No outro dia, uma mulher também sabia que o bacalhau nunca se ferve.

domingo, 12 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 27)

Por vezes a traição é lealdade  e a lealdade é traição. O Javier Cercas tem razão: temos uma ética da lealdade, mas não temos uma ética da traição. Um traidor à FLN argelina, a Sartre, à revolução.
Devemos muito a alguns traidores, Javier.

Ruptura no coracobraquial. Uma pega mais larga na presse de banco e já  não durmo de lado  há duas semanas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

pequeno intervalo

A preparar o blogue de apoio ao livro Cenas da vida menor - histórias de violência sobre mulheres, que vai ser editado pela Chiado .