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segunda-feira, 22 de maio de 2017

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Diário de um psicólogo ( 40)

Há aqui qualquer coisa que não bate certo.  Um tipo vai  pedir pela saúde de um familiar e arrisca-se a lerpar. Ou então bate. Ele morreu para nos salvar.
Seja como for, tenho a impressão de que a higienização da fé lhe retira um bocadinho  da generosidade.


Ter de ir a Lisboa apresentar o livro ( mesmo sendo com o Miguel Serras pereira, eu sei) faz-me sentir como se fosse andar de avião. Desde novo  que  uma semana antes de meter num avião é como se o Benfica perdesse todos os dias 5-0.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Cenas da vida menor : explicação ( 2)





 Pois é. E é intuitivo. E isto também. Pouco me interessa se são duas mulheres ou  um homem e uma  mulher  a criar um filho. O acaso, as voltas da vida, o desejo, são todos factores aleatórios. Para o alvo a que apontei  é indiferente, mas para o centro do alvo, não. Como a regra maioritária ainda é a família em volta de um casal de pessoas de sexo diferente, é dela que me ocupo.  Até porque a violência, disruptiva e desestabilizadora, é esmagadoramente de autoria masculina.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Diário de um psicólogo ( 39)

As vítimas profissionais são quadros fascinantes 1% do tempo, entediantes na eternidade. Esse 1%, apesar de tudo, merece nota.  Entre muitos casos, tenho  uma rapariga em terapia que demorou um ano inteiro   a despir o fato.
Se os depressivos de lei acham que tudo o que lhes acontece é culpa deles, as vítimas profissionais entendem o contrário: são as almas mais puras da evolução e se sofrem é porque o mundo conspira contra elas. Com frequência, mas nem sempre, esta característica  inscreve-se numa personalidade narcísica, aquilo que Kohut ( às vezes os psicanalistas acertam) definiu como  o falso self, um eu em forma de balão. Inchado mas cheio de ar. 


A ralar cenouras  para salada russa. Antes da   terceira fartei-me e por isso resolvi que era demasiada cenoura crua para os intestinos. Chama-se  ( reduzir ) a dissonância cognitiva.
Dou sempre  nomes catitas à preguiça.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Apresentação: o Miguel Serras Pereira.

Não gosto, só fiz uma nos anteriores quatro livros, mas tem de ser. Será em Lisboa, sábado, dia 20, no Clube Literário, e será feita pelo Miguel Serras Pereira. Depois darei  pormenores. 

É o  caso típico em que o apresentador vale muito mais do que o autor; este precisa que compareçam para vender uns exemplares. Venham pelo Miguel, cujas traduções comecei a ler aos 17-18 anos.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Cenas da vida menor : explicação ( 1)


A da contracapa diz quase tudo ( clicar para aumentar), mas não tudo. Por exemplo, não diz por que razão escolhi  a forma. Quatro histórias em vez de quatro  de casos reais.

Ao contrário do que costuma dizer  um divertido  leitor ocasional deste blogue, não tenho ambições literárias: escrevo porque me falta a coragem de não o fazer ( Kraus) .Podia ter pegado em quatro casos reais e comentar . O livro traria então as inevitáveis larachas psi ou, na hipótese benigna, redundância inofensiva. Escolhendo histórias, pude assinalar  as principais categorias que, do meu ponto de vista, revestem o essencial da violência sobre  mulheres.

O princípio axial é  o domínio masculino fragilizado pelas novas  disposições femininas.
Na primeira  história, já a referi aqui, um tipo  não suporta  a ex-mulher livre e disponível para terceiros. Só a consegue imaginar assim. Ambiente rural e o cliché  obrigatório do álcool: coleccionei dezenas de casos desses na consulta.
Na segunda, trabalhei um casal de namorados: precisamente para opor à primeira história. O ciúme e a possse não precisam da idade nem do vinho, mas a protagonista é a mãe do rapaz que mata a namorada. Trabalhar a culpa.
Na terceira, uma  mulher morre por acaso.  Bentudo quer matar o marido da amante, um tipo execrável, doente e velho. Interessou-me mostrar duas categorias: o velho vínculo do casamento formal e o lado caótico da violência.
A quarta história é outra conversa, fica para mais tarde...

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Diário de um psicólogo (38)

Na clínica passo às pessoas uma mensagem cada vez mais  ambiciosa e difícil : O dia chega ao fim sem os teus se  terem  magoado,  nem teres magoado ninguém,  e as tuas pernas mexem-se? Então foi um grande dia.


Ser um  conservador ( sobretudo da liberdade) em vez de um reaccionário, permitiu-me comer os melhores filetes  que já fiz: os de bacalhau fresco.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Diário de um psicólogo ( 37)

Casanova foge para Munique  na companhia do padre  Balbi ( que fazia amor desastradamente  com todas as criadas das várias estalagens em que ficaram)  e encontra a condessa Coronini, uma conterrânea ( veneziana) de 71 anos. Esta promete dar ao príncipe  Eleitor  uma palavra em favor  de Casanova ( sabe-se lá porquê...)  e lá vai ele reunir-se com o confessor  do Eleitor, um jesuíta. 
O padre conta-lhe que a cidade está envolvida num milagre: o corpo da imperatriz, ainda em exposição pública, mantém os pés quentes. Casanova foi confirmar. Sim, os pés continuavam quentes, porque virados para  uma lamparina acesa.
O  verdadeiro milagre é sempre  a crença  das gentes.



No outro dia voltei a fazer o número. A mulher, distraída na sessão, permanecia alheia a qualquer trabalho intelectual. De repente varri para  o chão quase tudo o que tinha em cima da mesa. 
- É para você prestar atenção. 
- Fiquei foi assustada...
- Ora  aí está.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Diário de um psicólogo (36)

O  episódio dos miúdos no hotel espanhol é um epítome da doença de uma  geração: da minha.
Engarrafam mil miúdos num autocarro para a viagem que lhes dizem ser  a da vida deles e enfiam-nos num hotel. Surpresa: os miúdos  portam-se mal. E muito bem.
Esperavam talvez os paizinhos que os miúdos lessem Schopenhauer,  fizessem ioga e adoptassem gatinhos. Como não aconteceu, e muito bem, culpam os garotos.
Envelhecer bem é não nos  comportarmos como  garotos, mas deixar os garotos comportarem-se como garotos.


Mais decadência. Dou por mim a comprar bacalhau  fresco.  Como um velho elefante cujos molares estão gastos e  suportam mal as memórias do bacalhau autêntico  entre os dentes.
Bem, só desta vez.








segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cenas da vida menor: o poder de quem decide


No outro dia foram divulgadas imagens de um homem  a afogar uma mulher. Pelo menos de um homem a mergulhar a cabeça de uma mulher num rio. Passados  dois dias soubemos que o homem foi detido e colocado em prisão preventiva.

Comparemos com o massacre de Barcelos. O autor confesso andava em liberdade  ( pena suspensa)  depois de ter espancado a filha  grávida e a sogra.  A mim parece-me que o homem tinha  escrito desastre na testa. A mais gente também pareceu, porque foi-lhe destinado um plano de recuperação. Tal plano nunca foi cumprido e o homem degolou as testemunhas do caso.

Imaginem que as imagens do homem a afogar a mulher, pelo menos a mergulhar-lhe  cabeça num rio, não tinham sido vistas por milhões de  espectadores. Acreditam que o juiz o remetia para  a cadeia? Eu não, porque existem dezenas de casos de homens que matam/espancam as mulheres enquanto aguardam em liberdade o julgamento por violência anterior. Neste o caso o juiz deve ter pensado  duas vezes...

Há uns anos cheguei a discutir com a Ana  o projecto de um livro sobre violência (já não me lembro exactamente dos detalhes) . Apertar com o poder de quem pode decidir vale mais do que mil campanhas de TV  disparatadas.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Diário de um psicólogo (35)

Um velho ferroviário do Sporting, de que  gosto imenso, está cada vez mais velho e cada vez mais do Sporting. Mima-me, traz-me coisas da horta  e nunca se zanga quando abato os lagartos com  subtileza de talhante ( sim, o corte certo da carne é meio caminho para a felicidade). 
É de um mundo que já não existe. Não tem WhatsApp, email, airs bags no carrro ( que já não consegue guiar), créditos nem SportingTV.  Um fantasma bom  e  triste, que me mostra como as coisas que foram ainda são, já não podendo ser. 


Agora quando acordo a meio da noite vou à cozinha beber leite de soja e volto a dormir: a decadência sem lactose.






quinta-feira, 6 de abril de 2017

Diário de um psicólogo ( 34)

A única vez que se embebedou. Bebeu tudo o que havia. Foi no casamento do tipo que teve sexo com ela quando tinha entre 9 e 14 anos. Ligações familiares obrigatórias. Muitos anos mais tarde, perdeu um filho com 14 anos. Hoje tem dois, uma pequena empresa e uma distracção apaixonada: flores.
Faz sempre cara alegre ao mau tempo, passamos metade da consulta a rir.
Às vezes agradece-me a disponibilidade  e a atenção. Se  soubesse o bem que me faz  e  como compensa o tempo gasto  com idiotas pomposas que fazem um drama de uma unha partida...


 A ler e   reler detalhes da presença soviética no Afeganistão. A palha com que em Herat os primeiros insurgentes enchiam a barriga dos comunistas afegãos ( depois de os terem esventrado) dever ser a mesma que há na cabeça dos que  explicam, com os dedinhos em ponte, que o fanatismo na zona começou com a invasão do Iraque.




terça-feira, 4 de abril de 2017

Cenas da vida menor : a representação da violência ( 2)


Só numa das  histórias do livro é que  a violência é indirecta: Berta morre por engano, Bentudo queria matar  o marido da amante. Apesar de tudo, é a história em que  a violência é mais evidente. Todas as vítimas o são por engano. Na história, a amante de Bentudo nunca se pôde separar do marido.

O marido, o namorado, o companheiro, podendo escolher, não matam as mulheres. Podendo escolher, preferem que elas façam o que eles querem. O não-me deixes ou o  não-te-divorcies é um enunciado claro: se as coisas forem como eles querem, tudo se passa bem. Isto significa que a impotência é muito mais do que um assunto de erecção , mas também descobre outro mato.

Esse mato passa pela socialização da posse. Na primeira história,  a mais tradicional, o homem  remói, em bebedeiras  e em conversas de gajos, as histórias das gajas que se separam e andam agora aí frescas  e apetecíveis. Cada gaja de que os amigos falam é sua gaja, a sua ex-mulher. É ela que é comida por este e por aquele, é ele que é  o  pós-corno.

domingo, 2 de abril de 2017

Cenas da vida menor: a representação da violência ( 1)



Vivemos num país  bem melhor , em termos de direitos das mulheres, do que o dos nossos avós. Um argumento muito utilizado  é o de que  a violência sobre as mulheres tem apenas agora mais visibilidade.
Também vivemos num país  em que é agora crime maltratar  um gato ou um cachorro. Curiosamente, vivemos num país em que se pode maltratar  - espetando-lhe  ferros - um touro e até pedir dinheiro para assistir ao acto*. 
Não consta que  o facto de ser mais visível ( maior número de queixas e maior atenção mediática) a brutalidade sobre  cães gatos  atenue ou explique o facto  de touros  serem maltratados nas arenas.

Até porque muito do que ocorre  não é reportado ( veja-se este exemplo canadiano que não deve diferir muito do nosso) , o argumento da visibilidade mediática assume-se como néscio. 
O ponto essencial é o de como a violência sobre as mulheres nos pode dar uma representação da violência da transformação das relações de poder entre os sexos.


* sou um aficionado.




domingo, 26 de março de 2017

Barcelos, um massacre banal ( 2): o silêncio da Igreja portuguesa

Se pesquisarmos Igreja portuguesa + violência doméstica obtemos os mesmos resultados que obteríamos se pesquisássemos Igreja portuguesa+ dildos . Por outro lado, todos nos habituámos a ver e a ouvir clérigos portugueses a falar sobre tudo: política, troika, futebol, drogas etc.
Sendo que a grande maioria dos crimes contras as mulheres são cometidos em zonas rurais  ou semi-rurais, isto talvez cause admiração. Nas pessoas com défice de atenção.

A Igreja não usa o poder político e  mediático de que dispõe porque não quer. E não quer porque está historicamente  vinculada às bases mentais e culturais na quais assenta o pressuposto. A mulher tradicional, a mãe de família, tem por obrigação a obediência ao marido. O divórcio, a maior causa da morte das mulheres é, ainda, um inimigo da Igreja. Como dos maridos assassinos.


O erro, para não falar da estelífera hipocrisia,  da Igreja é monumental, basta reler Ratzinger. A família tradicional devia ser o alvo da atenção. Preferir a  bolorenta  ideologia masculina  da dominação ao aperfeiçoamento dos novos modelos  familiares é mais um prego no caixão da doutrina social cristã.



sábado, 25 de março de 2017

Barcelos: um massacre banal

Tão banal que nem o DN nem o Público hoje o trazem na capa. Se isto não é normal, o que é normal?

Nas campanhas contra os queruscos, na Germânia, os romanos  empregavam um verbo para definir as razias que faziam nos campos: vastare ( esvaziar) . O nosso devastar inclui o prefixo latino de ( totalmente). Ou seja, esvaziar tudo. 
A diferença do massacre normal para as pequenas matanças diárias,  ainda mais normais, tão normais que talvez sintamos a falta  delas se um dia acabarem, ou se se reduzirem, é ...nenhuma. A devastação de uma só família não vale menos do que  a de três ou quatro.


Não vale a pena explicar que se quatro  activistas ambientais , ou imigantes, ou ciganos, ou activistas LGBT fossem degolados em meia hora numa aldeia minhota , a comoção na Lisboa mediática letrada era brutal. Medidas urgentes eram exigidas. E , sem dúvida nenhuma, com toda  a razão. 


Só podemos especular sobre a indiferença. Desde  a disfuncional pulseira electrónica do Manuel Palito ao sossego  com que o alegado autor do massacre de Barcelos vivia num sítio onde viviam testemunhas  do espancamento que ofereceu  à filha, à ex-sogra e, provavelmente , à ex-mulher.
Talvez  a máquina judicial e a mediática-lisboeta pensem o mesmo: são coisas lá deles, de matarruanos, de terras de couves e gado.


Serei eu porventura  a estar errado . Voltemos  aos romanos. Massacre  radica vagamente em macacre, macecle, termos franceses  antigos derivados do macellum romano: talho. 
Nada mais vulgar do que um sítio onde se cortam costeletas.




sexta-feira, 24 de março de 2017

Diário de um psicólogo (33)

Julgo que já  falei dele. Três suicídios na história familiar ( linha paterna),  divorciado, em alcoolismo agudo. Bom homem.  Não dá um berro, nunca levantou a mão aos filhos ou à ex-mulher. Voltou ontem. Ainda ensimesmado, mas já parece outro. Uma longa estrada, mas às vezes ganhamos  o dia.


Ao almoço  apanho os anúncios do Audição Activa. Agora já pode ouvir  o que dizem os seus familiares, já pode participar nas reuniões sociais.  Pergunto-me que pessoa se sujeita voluntariamente a esta trepanação.





quinta-feira, 23 de março de 2017

Diário de um psicólogo (32)

Coincidiram ontem  três terapias, em curso, de volta do mesmo binómio cinotécnico: aceitar e adaptar. 
Aceitar o que  a vida nos trouxe é reprimir a ilusão  narcísica de que merecíamos mais; adaptarmo-nos é não desistir dela. Nos intervalos, morangos e champagne ( a versão jet set) ou cerveja  e futebol ( a minha).

Nem de propósito,  segunda lesão consecutiva;  no tendão do bíceps, com derrame para o deltóide anterior. Tenho de passar para o golfe.

terça-feira, 21 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 31)

Já estou mais desconfiado  das novas línguas de bacalhau.  Estava habituado à cor marfim das anteriores.  Ainda não as fiz, óbvio, porque estão  a marinar  na receita da Bé. As expectativas.
A Expectativa é a amiga gorda da Esperança. É mais calma e descontraída. Ninguém aguarda o resultado de  uma biópsia  com a expectativa de se safar; tal como nenhuma grávida está de expectativas.
Ainda assim gosto de ambas. Há o tio, o Pessimismo blasé. Fuma cachimbo, usa lenço ao pescoço, masturba-se aos sábados  e brinca com comboios. Continuo a gostar mais delas: acreditam mais na vida do que nelas.


As minhas línguas nunca ficavam como as da Bé, do Carrossel, na Cova Gala, terra de pescadores. Um dia  apertei-a. Levou-me à cozinha e mostrou-me a marinada. As expectativas precisam sempre de uma boa professora.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 30)

  
Esta senhora foi salva dos nazis pelo Raoul Wallenberg em Budapeste. Em 1945, o Raoul  foi convidado pelos soviéticos a visitar o paraíso  socialista e desapareceu. 
Raoul  teve de mentir muito para salvar centenas de judeus. A mentira terapêutica às vezes funciona. Só às vezes.


Depois das da Lugrade, as da Caixamar. São línguas  de bacalhau islandês, mais amarelas, bom aspecto. Vamos ver, não gosto de mudar. O problema da expectativas.



quarta-feira, 15 de março de 2017

Diário de um psicólogo (29)

( corolário das  duas entradas anteriores) 
A nossa capacidade de construir fortins e duplos fossos e a possibilidade de existir sempre um traidor  dentro das muralhas. Também: de que servem as defesas se sabemos não conseguir resistir?  Ainda: como não considerar o traidor leal, se ele poupa  a fome  e a sede aos civis?

Acordei às  seis da manhã várias vezes.  Faço-me de morto e volto a adormecer. Com um olho aberto...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 28)

Do Oneirocriticon: se a pessoa sonha que carregou um navio com mantimentos  para uma longa viagem, significa que vai sofrer de ansiedade e tristeza.
Achmet na mesma linha de  A toca do Kafka: a cautela é tão normal como o desastre.


Terapias a começar. Fazer  a ligação às pessoas. Como nos interrogatórios policiais, procurar pequenos pontos comuns. No outro dia, uma mulher também sabia que o bacalhau nunca se ferve.

domingo, 12 de março de 2017

Diário de um psicólogo ( 27)

Por vezes a traição é lealdade  e a lealdade é traição. O Javier Cercas tem razão: temos uma ética da lealdade, mas não temos uma ética da traição. Um traidor à FLN argelina, a Sartre, à revolução.
Devemos muito a alguns traidores, Javier.

Ruptura no coracobraquial. Uma pega mais larga na presse de banco e já  não durmo de lado  há duas semanas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

pequeno intervalo

A preparar o blogue de apoio ao livro Cenas da vida menor - histórias de violência sobre mulheres, que vai ser editado pela Chiado .

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Diário de um psicólogo (26)

As pessoas passseiam cães ao colo, marcam encontros no Tinder, divertem-se no Facebook, voam em lowcost para hotéis baratos, comem antidepressivos ao pequeno-almoço, participam em reuniões e em jantares. E, no entanto, parecem felizes. 
Pela minha parte ,assino por baixo do Chtcheglov:  We will not work to prolong the mechanical civilizations and frigid architecture that ultimately lead to boring leisure


Agora, na clínica, para vincar um argumento, varro num golpe a tralha que está em cima da secretária. As pessoas ficam mais relaxadas. Não posso fazer isto com todas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Diário de um psicólogo (25)

O avô, o tio e o pai suicidaram-se. O homem parece um farrapo. Na vila dizem que é um bebâdo. Assim se resume a idade média da saúde mental. Portugal, 2017.


Salústio ( 1.48) , contra Sula,  tradução de Mc Gushin: "Why then does the tyrant walk abroad with so great a following and with such assurance? ". Se souberem eu também não.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Diário de um psicólogo (24)

Pequenas vitórias. A M. e a R. progridem. Já aceitam que os outros sejam diferentes. Elas são boazinhas, ainda não tinham entendido que os outros podem não ser. Quase se culpavam por isso.
Já a P. diz que não acredita no amor. Eu também não - só no laço -, por isso   temos o Benfica em comum.

O mais rijo. Demolha de 24h em 8 águas geladas. Àgua a ferver com um dente de alho, desligar o lume.  Enfiar o gadídeo . Espererar  30 minutos. Lascas  largas  e gordas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Diário de um psicólogo (23)

A revisão do livro avança. Não pode haver humor  em histórias tristes? Comigo pode. Outra vez Adorno: é a mesma fábrica que faz tudo.

A trabalhar um caso de crises de pré-pânico  numa pessoa que perdeu o pai de repente.  Alguns progressos, mas o melhor não é meu. O pneumologista deu-lhe uma bomba para falta de ar imaginária. Não a usa, mas ela está lá, na mesinha cabeceira. O filtro  do centauro, não é?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 22)

O Cenas da vida menor: histórias de violência sobre mulheres já está na editora. Quatro  histórias, duas  delas  pouco ortodoxas . Quinto livro. Recomeça tudo de novo. Revisão do texto, cortar gorduras. Menos tempo para o diário.

E o Benfica a encaixar golos como a areia  golfa ondas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 21)

Sexo, ambiguidade sexual, pesos, MMA, raiva, drogas. Uma boa história ( a 1ªtemporada....)  porque sem lalangue psi nem desculpas de mau pagador. Uma prisão  a céu aberto.
Ainda a propósito disto e de ontem:  não há verniz civilizacional que se rompe  quando somos sujeitos a certos estímulos.  Adorno diz melhor: vivemos  numa prisão a céu aberto, é a mesma cultura que produz o verniz e a bestialidade. Daí  a história de Auschwitz e da poesia.

A cria mais nova está adolescente e politicamente discorda de mim em 80% das coisas. Discutimos, zangamo-nos, discutimos. Julgo que tenho uma pequena parte neste sucesso. Quase emocionado.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (20)

"The more total society becomes, the greater the reification of the mind and the more paradoxical its effort to escape reification on its own "(1949  "Cultural Criticism and Society").Foi neste mesmo ensaio que Adorno escreveu o muito mal citado entre bifanas: "É barbáro escrever poesia depois de Auschwitz ".
A coisificação da mente interessa muito ao psicólogo. As ideias-coisas são o cimento do delírio paranóide,  ciúme ou  grandeza).


Lembro-me sempre de uma irmã especial que morreu, de cada vez que como queijo flamengo com chá. É o lanche-aneurisma.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (19)

Clemente não aprecia várias  manias dos gregos :  por exemplo,  os adultérios consagrados ( os outros a igreja veio a proteger). A de os homens se transformarem em estrelas, flores, fontes e rios,  aborrece-o ( Livro 10, XXVI) bastante. Clemente acha que isto devia  fomentar a cizânia porque cada coisa era dedicada a um deus. 
O que avançámos. Hoje pegamo-nos por causa do futebol.


O frio  não permite ainda  curar carne no terraço. Mais frio sff.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 18)

Criar uma situação. Gosto de vários desse tempo. Da Letrista à  Situacionista. Debord e Waneigem, claro, mas também o maluco do  Jorn. Previam que o helicóptero viesse a ser o meio de transporte individual dos anos 80.
Mais importante: os personagens deixam de ser  observadores passivos  e passam  a actores. Ora, para mim,  a essência da terapia é criar situações e arrancar as pessoas da passividade.

Estou sem  a minha droga. Cold turkey. Entre escritas, resolvi pendurar roupa lavada que ela deixou um cesto com a indicação expressa  de não mexer. Os viciados são assim.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (17)

A vida sexual da maior parte das mulheres que vejo é tão interesante como uma couve. Por isso acolhi, no outro dia,  e com agrado, a problemática do multiorgasmo numa senhora de 66 anos. É evidente que o contexto em que as vejo  implica que muitas áreas da vida prazenteira  estão em baixo. O problema é que me relatam  que mesmo antes da depressão a coisa já era semi-vegetal.
Uma verdadeira  educação sexual seria gratuita, para adultos e em horário pós-laboral. E com um único módulo: a anatomo-fisiologia do prazer.


Hoje dormi bem. Ontem também. Devo estar a ficar doente.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 15)

Uma diferença elefantina entre eles e elas: o compromisso. Elas ligam-se às coisas como  se o mundo acabasse se falhassem. Pode ser um filho com más notas ou a doença da mãe velhota. Eles dispersam-se como espermatozóides. Está bem de uma maneira e está bem de outra qualquer. Claro que me identifico com eles. Claro que aprendo  com elas.

Com este frio, treinar logo de manhã. Oito e meia. Dois graus .Corrida, saco, pesos.
É bom fingir que se está vivo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (14)

Se sobreviver , não me imagino  a levar o netinho à pastelaria no intervalo da hidroginástica. Pior só regressar ao jardim-escola João de Deus.
É verdade que vejo na clínica muitos avós satisfeitíssimos com essas actividades. Lembro-me sempre do Calvin a procurar a costura da lobotomia  na cabeça da Suzie quando ela dizia gostar muito de ir para a escola.

Três chávenas de café bem quente durante a manhã. Os estimulantes modernos ( e ninguém os descreveu como Balzac) são eficazes e viciam bem.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (13)

Continuo a acordar  muito cedo. Sete e pouco. Correio para terapias em curso. Como foi a semana, como se resolveu aquilo etc. Uma ou outra mensagem de desespero: desaparece a lassidão e a pessoa de repente está ao pé de mim. Resposta imediata, plano de acção, incentivo. É o trabalho.


Mortes na família. A vacina que levei há muitos anos ( a morte de um filho)  tornou-me um velho gladiador desinteressado e arrogante. Combato isso também. A arena é de todos, somos todos irmãos.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (12)

Como  as pessoas constroem laços é mais interessante do que a forma comos os rompem. Sim, há na ruptura, sobretudo na lenta, um vivacidade tenaz. Ainda assim, na construção do laço habita um contraplano. Um pouco como um tipo que se engana na estrada mas não volta para trás.

Nas terapias há gente que me  esgota. Sugam-me  a energia, como dizem os tontinhos do reiqui. Bem, é compensar. Uma sesta impecável com a voz do Attenborough a descrever  a vida dura  de um tigre de Bengala.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (11)

Quando começam a morrer ou a ficar doentes  os da nossa geração   e das nossas relações ( excluo as ditas celebridades),  sói dizer-se que tomamos consciência  do peso do tempo e da idade. Não entendo  bem por que motivo uns quilos  a mais ou uns dentes a menos não fazem o mesmo trabalho.

Estou melhor da insociabilidade. Cultivo contacos pequenos, mas regulares. Brevíssimos. Passo por simpático e bem disposto. Os búfalos cafres também conseguem-se esconder-se atrás de uma moita.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (10)

"Foi por causa do Ronaldo e da bola de ouro. Há dois anos, quando ganhou a terceira. Perguntei-lhe quando  foi a primeira, insisti e ele começou a barafustar; depois bateu-me. Foi a última vez que me bateu".  Ela tem quase setenta anos e ouvi isto ontem. Qualquer  pretexto  serve. Lá  dizia o cardeal de Retz: o Bem dá muito trabalho, o Mal faz-se sem esforço.

Fui para o terraço às 06.50h. Lua cheia misturada com o primeiro esboço  do dia. Tirei fotografias. Estúpido. Devia estar a dormir.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 9)

Hoje mais pessoas para ajudar. Quando eu preciso, quem é que me ajuda? Fácil: anti-inflamatórios, o saco de boxe e o Benfica.

Quase a acabar a enorme  História da PIDE, da Irene Pimentel. Já tinha lido outro ( gosto muito dela), mais intímo e detalhado. Há nos torcionários uma ingenuidade desarmante: acreditam nos presos e torturados. Querem acreditar.






quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 8)

As pessoas por dentro. Ouço tantas vezes isto.  Como são / o que são. E o que interessa isso? A maior parte do que interessa  vem do que as pessoas são por fora. As rosnadelas ou a má educação, mas também aquelas que fazem logo uma observação bem humorada . É o radar humano.

É  divertido ter no gabinete  alguém com vinte e cinco  anos, tendo-o conhecido com cinco. Dá uma sensação incrível de  empatia, são as consultas mais relaxadas que existem. Um humano confiar assim noutro é enternecedor. Acontece que é  apenas a conveniência, um dos muitos nomes da necessidade.

Apontar:  Manchester x Liverpool,  domingo, 16h.






terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 7)

Os ovos biológicos  ( oferecidos ou comprados) estelíferos  em azeite que tinha  apenas quinze dias ( três tons de verde claro com uma pitada de amarelo  espesso)  quando  o senhor F.L. mo trouxe. Pão  rústico, um copo de tinto. A melhor ceia, serôdia, depois de horas de parque humano.

Quanto mais conheço os humanos  mais gosto deles. Não me ladram, vestidos com camisolinhas para o frio,  nas varandas todo o dia.
O que se esforçam as pessoas . Algumas  fazem 200km ( ida e volta )  para uma sessão de psicoterapia. E tentam aplicar o que combinamos. E insistem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 6)

Ontem de volta  dele. O livro de histórias de violência sobre mulheres está com a edição estagnada, um amigo meu anda  a tratar disso,  mas sou bem capaz de o publicar online; o que faz falta é avisar a malta, o resto já  não me interessa.

Nunca me preparo bem para o início da semana. Um misto de optimismo com enfado. Como os velhos nos velórios: é mau mas não foi comigo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo (5)

Por várias razões, no mesmo dia, três  pessoas com um ponto em comum na biografia: perderam filhos adultos. Uma coincidência. No mesmo dia, uma mulher enervadíssima porque o filho namora uma divorciada mãe de uma criança: "O que  vai ser da minha vida?"

É uma pena não ter o FM 2017 instalado no computador da clínica. Dava jeito afinar o plano de treinos do Ward-Prowse enquanto ouço a descrição do trato  gastrointestinal do hipocondríaco da tarde.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 4)

Tenho uma terapia em que Cavour e Metternich estão sempre presentes. Aliás,  vendo bem, várias.  Sistemas de realismo prático, resistência inteligente à mudança,  nacionalismo na versão privada ( sangue e coesão). As famílias são pequenas nações com pequenas guerras , pequenas reconstruções. E com grandes  rancores.

Quando chegar a casa espero que me tenham deixado papas de abóbora. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 3)

Sonhei que  a minha mulher me oferecia um pijama. O problema é que não uso desde garoto. Fui procurar no meu amigo Achmet. Não há lá nada sobre pijamas, mas  o 118 diz que se alguém sonha que dorme nu conseguirá terminar o seu projecto. Bom ou mau, diz o engraçadinho do Achmet.

Fiz salmão com ervilhas para o almoço. Por causa das senhoras da casa. É  fácil agradar se o agrado for fácil. 

Hoje  tenho de estar em forma. Duas pessoas que me dão um sono mortal . Uma vez a minha sogra relatou-me o conteúdo de todos os caixotes de louças que trouxe de África. Numa  sala semi-escurecida e com a braseira ligada. As sessões  só duram 60 minutos.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Diário de um psicólogo ( 2)

A manhã de volta de bula-bula. Twitter, blogues, acompanhamento de terapias   por email. Acabei a biografia do Bismarck do A.J.P. Taylor: não me interesso por nada que não me pertença. Soa bem mas não entendo. 
A tarde começou  mal. Doentes da consulta geral a atrasarem-se, as marcações encavalitadas. A coisa endireitou-se depois da banana e do café .  Uma possível ( ainda não está estabilizada) terapia especial. Às vezes parece uma concorrente de reality shows :  casaco de lantejoulas e botas brancas, boquinha lamentosa/ ninguém a compreende , logo a ela, tão verdadeira e boa pessoa. Volto a olhar e aparece-me uma mulher  ( anda pelos  vinte  e muitos) mui interessante, olhar directo e malandro, discurso tenaz. O problema deve ser meu, mas não me pagam para ter problemas.

Diário de um psicólogo ( 1)

Estou com uma dor de dentes  mais inútil do que o Marques Mendes. É o terceiro molar esquerdo. Deixa-o estar. Hoje tenho gente simpática e fácil nas terapias.  Progridem bem e aturam-me a ironia quando me distraio. Distraio-me muitas vezes. Ao fim de uma mão de sessões deixo de tomar notas e guardo tudo na cabeça. Não sei como, mas quando a pessoa entra vem tudo ao de cima. Depois esqueço,  depois  volto a lembrar.
Na consulta  geral vai ser pior. Vem uma mulher que me recorda  a Bertha Cool. Diz que trava uma luta contra um indíviduo que lhe  roubou um terreno  há 40 anos. Dois brufens para  o caminho.

intervalo ainda

Estou de volta desta geringonça.